segunda-feira, 6 de maio de 2013

Madrugada - #[Trecho de conto]

(...)

A madrugada chegou. Três horas da manhã, 23 horas depois que eles saíram da cidade, chegaram ao ponto marcado no mapa. E Albert conferiu novamente o mapa para saber ser era mesmo ali. Estava correto, sua navegação era perfeita. Mas aquele lugar não parecia ser diferente de todos os lugares que passaram nas últimas horas. Ainda só tinha mato e barro.

Albert desceu da carruagem e bateu na porta. Ninguém atendeu. Ele abriu a carruagem, preocupado, e viu que o detetive e o padre dormiam tranqüilamente. Ele não quis atrapalhar, mas precisava soltar os cavalos para que pastassem e descansassem um pouco. Bom, como estava três horas adiantado, resolveu soltar os cavalos por conta própria. Se um deles, ou os dois acordassem, paciência, ele tinha que fazer o que tinha que ser feito.

Albert levou cerca de cinco minutos para soltar totalmente os quatro cavalos. Eles se afastaram da carruagem timidamente, indo em direção ao matagal, a fim de pastar.

Albert olhou mais uma vez para seus passageiros e percebeu que eles ainda dormiam. Provavelmente teriam um dia cheio, caçando bruxas e tudo mais. O melhor era deixá-los descansar. Ele então subiu no assento do cocheiro, e ficou observando seus cavalos. Acabou pegando no sono.

Perto das três e meia da madrugada, um uivo penetrante e assustador rasgou os céus e fez com que Albert acordasse. Ele verificou se seus passageiros estavam bem e sim, estavam dormindo tranqüilamente, respirando forte, mas tranquilos. Provavelmente cansaço da viagem.

Albert escutou, em seguida, o som de uma coruja. O uivo não levou medo nenhum a Albert, mas a coruja o assustou profundamente, não sabia por quê. Tinha algo de real, de próximo, naquela coruja. Sem falar que só aquele lugar, por si só, já o assustava. A escuridão pairando por todos os lados, a noção de que não obteriam ajuda se precisassem, nada nem ninguém a quilômetros e pequenos animais agitando esporadicamente o matagal. O vento também assustava, passava suave em seu rosto, mas chegava tão forte no matagal que produzia um som intrigante, como se soprasse em um cano oco. Albert não era nenhum perito, nem mesmo um homem estudado, mas achava que aquele som não era muito normal para tal ambiente.

Puxou um relógio de prata do bolso e observou. Os ponteiros indicavam que acabara de dar três e meia. Silêncio total. Albert olhou em volta novamente, dessa vez tentou captar algo pelo ouvido. O vento ainda era fraco e seu som era baixo, mas a coruja que o acordara simplesmente silenciara. Não seria tão estranho se fosse só por isso, mas de repente tudo parecia um grande deserto, nenhum som mais se ouvia, nem mesmo os de pequenos animais mexendo no mato. Até mesmo os insetos se calaram. Droga, devia ser só impressão, por que pensar diferente? Mas que era assustador olhar para todo aquele mato e não ouvir um único ruído... ah isso era.

Então Albert espreguiçou-se e desceu bem de vagar a carruagem para que não acordasse os outros. A vontade de urinar tinha surgido durante os pensamentos sobre silêncio, talvez fosse medo, talvez necessidade natural, não importava. O que realmente importava era que o cocheiro resolveu caminhar até o mato alto para urinar. Grande erro.

Não caminhou depressa, mas bem lentamente, apesar da bexiga que estava apertando cada vez mais, e assim chegou ao mato após uma curta e lenta caminhada, que para alguém apertado não parecera nada curta. Logo que abriu a parte da frente das calças, olhou para trás para certificar-se que nenhum dos cavalheiros estaria por acaso olhando a janela naquele instante. Pensou um pouco e fechou as calças novamente. Seria imperdoável um homem deixar o outro o ver urinar, ainda mais se fossem distintos cavalheiros britânicos, então resolveu que entraria mais no mato. O medo não lhe dominava naquele instante, não um medo concreto, apenas um medo abstrato lhe incomodava, como o medo de algo que nem sequer exista, medo de criatura folclórica, ou algo parecido. No caso de Albert, sentia naquele momento um pouco de medo do escuro, mas mesmo assim prosseguiu.

Quando achou que estava distante o suficiente, na verdade estava mais distante que o necessário, começou a urinar. A vontade era tanta que a urina passava quente e deliciosa pela uretra, o fazendo sorrir satisfeito olhando para o céu estrelado... quer dizer, o céu antes estrelado, visto que agora estava todo nublado. Como isso era possível? A menos de um minuto Albert olhou para o céu e o viu cheio de estrelas. Mas que importava? O importante era não perder nenhum momento daquele prazeroso fluxo urinário. Mas subitamente, ainda longe do fim de seu prazer, Albert ouviu mais um uivo. Mas que merda, esse não parecia distante, mas muito próximo. E não um uivo para a lua, era mais como o uivo de um lobo feroz que acabara de achar a próxima presa. E seria certamente um enorme perigo parar em uma estrada onde houvesse lobos.

De repente ouviu o mato se mexer, como se houvesse algo passando por ele. Albert olhou rapidamente, procurando o que poderia ser e nada viu. Foi aí que resolveu interromper o fluxo ali mesmo e correr de volta, decidido a partir e deixar o descanso pra depois. Mas ao se virar, um grito o assustou de forma a doer seu velho coração. Era um grito fino, como de mulher, só que parecia um grito de dor, e ao mesmo tempo uma risada histérica. Que nada, não tinha nada de risada, mas ainda assim era um misto de grito de dor ou tortura com um toque de satisfação. Mas quem gritara? Parecia tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Foi então que girou em torno de si tentando ver alguma coisa, se benzendo ao mesmo tempo. E no fim de trezentos e sessenta graus, deu o primeiro passo em direção ao carro quando ouviu uma leve risada. E agora era uma risada (e com certeza feminina), macabra, só que mais baixa, como de alguém prestes a fazer mal a outra pessoa. Ele olhou novamente em volta e começou a ficar eufórico.

— Quem está aí? — Gritou.

Mas não obteve resposta. Sua respiração estava acelerada por causa do susto, mas ele a controlou até que a conseguiu parar completamente para tentar ouvir algo à sua volta. Mas não ouviu nada. A noite era silenciosa demais. Nem mais o vento balançava a vegetação. Ele deu mais um passo, então ouviu novamente o mato se mexendo. Ele insistiu em gritar:

— Quem está aí? O que quer?

Sem resposta, ficou muito mais eufórico. O medo já começava a tomar conta de suas pernas. Deu lentamente mais um único passo.

A gargalhada, dessa vez eufórica, parecia a gargalhada de uma velha. Ele teve fortes calafrios e ficou dando voltas, olhando tudo a sua volta, já começando a se desesperar.

— Eu tenho uma arma, e não tenho medo de usá-la! — Gritava Albert, sabendo que sua espingarda tinha ficado na diligência.

Mais um uivo, ainda mais próximo, e o mato agora mexia um pouco distante, mas assustadoramente parecia aproximar-se. De repente o som do mato se aproximava depressa, como de alguém correndo por dentro dele em sua direção. Mas o cocheiro estava paralisado e não conseguiria fugir, e mesmo muito desesperado, apenas desembainhou a faca em seu cinto e olhou fixamente o movimento do mato. A coisa vinha em sua direção. Já podia ouvir a sombria respiração, era a mesma velha que ria. Quando o movimento no mato chegou bem próximo de si, ele avançou e esfaqueou, cortou o que estava mexendo o mato, nem queria saber se era pessoa ou animal. Mas nada fez, além de levantar fios de mato.

Mais silêncio, absurdo silêncio. O desespero já começava a tomar o cocheiro por completo. Não mais conseguia controlar a respiração, parecia que teria um colapso nervoso a qualquer momento. As lágrimas começavam a se desprender dos olhos e a respiração começava a fazer ruídos, como que ofegante, também ruído de choro, tudo misturado.

Ele ficava rodando procurando algo, com sua faca pronta para o ataque, mas nada surgia. Como não poderia haver nada no mato? Ele o havia visto se mexer. Ou seus sentidos lhe teriam pregado uma peça por causa do medo? Mas ele começara a sentir o medo aterrador depois de tais coisas, não antes. Ali ele nem sabia mais o que pensar, vinha tudo ao mesmo tempo na cabeça. Mas o silêncio continuava.

Quase um minuto inteiro se passou. Um minuto em tais circunstâncias pode parecer uma hora. O suor começava a descer em baixa escala e sentia sua pele fria, mas o rosto quente. O medo agora imperava mais do que qualquer coisa. O que fazer? Tudo tremia, suas pernas, seus braços, o destro com a faca, os dentes batiam, até o chão parecia tremer. Ele parecia ter perdido todo o senso de direção. E ao ter essa impressão, veio subitamente em sua cabeça que ele realmente perdera tal senso. Sim, em volta de si apenas havia mato alto. Qual era a direção da carruagem? De repente o medo dava um pequeno espaço para a insegurança, o que aumentava ainda mais o desespero daquele pobre homem.

Sua respiração ofegante acelerou, o desespero se estampou em toda sua face e num momento de total caos em sua mente, que já enlouquecia, o cocheiro olhou para o escuro céu e gritou histericamente:

— Deus, por que está isso acontecendo comigo?

E mais uma vez uma dor fortíssima do coração proveniente da mistura de susto com o mais intenso horror, temperado pela mais forte adrenalina. A voz da velha lhe sussurrou no ouvido esquerdo:

— O que pode ter Ele a ver com isso?

O desespero foi avassalador. Ele correu como um louco gritando ainda mais louco pelo alto mato. Os gritos eram finos, como uma mulher, sua voz masculina já estava afetada, pois sua garganta feriu-se com os próprios gritos. Ele não parava de gritar nem de correr pelo meio do mato enquanto se lembrava da horrenda voz da velha. Pareceu que ela estava muito próxima de seu corpo e falava com os lábios a um centímetro do ouvido. Chegara até mesmo a sentir o calor do bafo daquele ser. E continuava a correr e gritar. Era difícil correr pelo mato, mas ele o fazia. E a estrada que nunca chegava. E se aquele não fosse o caminho correto? Para que lado deveria seguir enquanto acabava com o que sobrou de suas cordas vocais com gritos estarrecedores? E a voz já estava muito baixa e rouca quando ele finalmente parou de correr. Já não agüentava mais, sua respiração estava violentamente ofegante. Ele já perdia o controle das pernas e os joelhos dobravam vez em vez contra sua própria vontade, se aproximando do chão. Ele então obrigou-se a ter um momento de lucidez e pensar. — Tem de haver uma explicação lógica para isso. — Pensou em voz alta. — Mas qual seria?

Cambaleou um pouco mais, se preparando para correr, mas percebeu que, chegando um pouco mais à frente, havia um imenso corredor vazio entre o mato, como se, naquela área, um incêndio tivesse aberto aquele caminho. Mas era de uma precisão cirúrgica, reta como uma coluna do palácio real. O medo já diminuía e a adrenalina se dissipava em suas veias. Uma trilha talvez. Feita por caçadores, quem sabe? Ele então avistou a uns 300 metros de distância, no fim da reta (aliás, nem sabia como podia enxergar tão longe somente contando com a luz da lua cheia), o cavalo da carruagem, ajoelhado com as quatro patas, se preparando talvez para deitar. Albert sorriu. Precisaria somente correr por aquele corredor e chegar à sua carruagem. Se tivesse sorte, prenderia rapidamente os cavalos na carruagem e iria embora bem rápido. O sentimento agora era parecido como o de felicidade. Havia uma esperança de que esse pesadelo estivesse perto do fim. Ele respirou fundo, decidido a ir embora.

Nesse instante o silêncio fora quebrado pela repentina voz da coruja. Mais uma pontada no coração. Ele olhou em volta. Não ouviu mais nada. Mas quando seu olhar voltou para a trilha que supostamente levaria à diligência, de trás de umas folhas amontoadas um tornozelo enrugado e branco saía lentamente. Ele sabia que era da velha. O desespero voltou e ele nem conseguiu se mexer. As lágrimas saíram de seus olhos. Rapidamente a velha saiu por completo e ele pôde contemplar todo o terror bem na sua frente. Era excessivamente enrugada, parecia ter séculos de idade. A roupa era muito branca, parecia até impossível ser tão branca naquele matagal. Ela sorria para ele, aquele pavoroso sorriso com poucos dentes. Não é difícil de se imaginar o terror que passava o pobre Albert naquele momento se pensar no ambiente sugestivo ao redor e os eventos que pareciam mais preliminares de um ataque, uma perseguição. E o fel circulava do coração congelando suas veias. Mas o terror realmente se alarmou quando a horrenda velha deu uma gargalhada súbita e igualmente horrenda. Ele gritou novamente como uma mulher e encontrou forças para correr como um atleta em meio ao corredor queimado no meio do matagal. Ele correu sem olhar para trás uns duzentos metros, mas no último cento, teve o reflexo de olhar sobre o ombro. A velha vinha lentamente, parecia voar com os braços suspensos. Ele então ouviu um murmuro, parecia a voz da velha. Apurando melhor os seus ouvidos ficou claro: — Chegou sua hora, Alfred!!! — Mais um grito, dessa vez a garganta expeliu sangue e a voz ficou rouca. Ele não parara de correr por nenhum instante. Merda, como ela saberia seu nome? Seu primeiro nome? Com essa distração, ele acabou torcendo o pé depois de uma tremenda topada numa pedra, que espirrou sangue do seu dedo pelos cantos. Ele caiu. Mas ao invés de olhar para onde estava a velha (ele não teve tal coragem), se pôs a olhar para frente e levantou-se para continuar seu caminho. Ele ia mancando, mas não gritava mais. Ia o mais rápido que podia, mas sabia que sozinho não conseguiria escapar, nem sequer amarrar novamente os quatro cavalos na carruagem. Mas tinha muita esperança que os outros o ajudariam, nem sabia por que achava que poderia haver um jeito de ajudá-lo, mas tinha tal esperança. E o caminho acabou.

Os olhos arregalaram. Jogou-se o pobre homem no chão, esbanjando em seu rosto o mais puro sentimento de decepção. O cavalo estava sozinho, não havia carruagem nem ninguém que pudesse ajudá-lo. Certamente seria seu fim. Somente restaria rezar o pai nosso e implorar misericórdia a Deus por seus pecados, simplesmente aceitando o fim. Fechou os olhos e... por um minuto inteiro esperou. Nada aconteceu. O silêncio voltara como música aos seus ouvidos. Ele reuniu toda a coragem possível naquele momento, concentrou tudo na boca do estômago e lentamente foi virando para trás. Sim, ele olhou no caminho entre o matagal. Nada. Nem sinal da mulher-demônio. Ele suava frio. Uma sensação de alívio se apoderou agora totalmente de seu corpo.

Ele levantou-se lentamente com muita dor no tornozelo e no dedão do pé e olhou em volta. Reparou que estava na estrada, a mesma estrada. A carruagem não estava ali, mas um dos cavalos estava. Então deveria estar perto, pois o cavalo nunca teria fugido, eram bem fiéis, ele sabia. O que fazer numa hora dessas? Ele olhou para o cavalo e teve a idéia: cavalgar até a carruagem. O cavalo era adestrado e saberia ajudá-lo a encontrar a direção correta.

Lentamente Albert foi se aproximando do cavalo, que estava ajoelhado a uns seis metros. Quando chegou bem perto, disse em voz baixa o nome do cavalo e pediu que levantasse, isso sem parar de mancar para perto do animal, demonstrando, além de esforço, muita pressa. Mas a violenta picada em seu peito surgiu mais uma vez quando do cavalo surgiu um sorriso terrivelmente cheio de dentes e um olhar indubitavelmente macabro. O cavalo tinha expressões tal quais humanas, talvez até demoníacas, mas expressava em sua cara algo racional, maligno, mas racional. Ele tentou gritar com a voz que lhe sobrara, mas não teve tempo. Antes de qualquer coisa, o cavalo falou. Isso mesmo, o cavalo falou!!! Era uma voz forte e grossa como ele nunca tinha escutado: — Não tem para onde escapar, o inferno lhe espera! — De repente sua própria voz sumiu completamente e ele não pôde mais gritar. O terror correndo em suas veias o impedia de andar, ainda mais de correr. Ele simplesmente não sabia o que fazer, era como um daqueles pesadelos onde você quer acordar mas não consegue, quer falar mas a voz não sai, quer correr mas as pernas não obedecem. O cavalo então voltou a falar: — É melhor prestar atenção na retaguarda. — E ele se virou bruscamente para trás e... bem, acho que mal pôde sentir a dor do machado preto que acertou sua testa, partindo seu crânio ao meio. Mas pôde sentir o impulso e a queda de suas costas violentamente no chão. Suas pernas tremiam descontroladamente e antes de falecer por completo, pôde ver a velha olhando seu corpo no chão, rindo satisfeita. E ela não estava só. Um homem encapuzado, todo de preto, lembrando um impiedoso carrasco também se aproximou. E também uma terceira pessoa, usando uma máscara metade branca, metade preta, vestido todo branco e com um livro de bruxaria na mão. Albert achou que a conhecia, mas não acreditou...

— Não pode... ser... você... — agonizava Albert, que fizera muita força pra dizer estas últimas palavras.

Sentiu o sangue descer como um rio em sua face. Também sentiu sua bexiga se descontrolando por completo e o fluxo, desta vez nada prazeroso, recomeçar involuntariamente. Até que o líquido vermelho, negro em sua visão, cobriu completamente seus olhos e o medo foi embora quando ele aceitou que estava morto.

(...)

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