domingo, 3 de março de 2013

Travesseiro Vazio - #[Mini Conto]




Pessoas mortas por todos os lugares. O cheiro de podre se confunde na atmosfera com o cheiro de pólvora. O ar na Terra cheira assim, não importa em que lugar do mundo você possa estar, é assim que é, este é o cheiro da atmosfera terrestre.
                Muros destruídos, nenhuma casa inteira, é como se um enorme tsunami e terremotos estrondosos tivessem passado ao mesmo tempo pelo mundo. Mas não. Nada disso. Não foi nada mais do que a guerra. Pura e simples guerra.
                Sargento Haskel está de mãos dadas com sua bela esposa. Andam pelo parque a contemplar tudo a sua volta. Seria uma frase bonita de se ler não fosse a realidade que a envolve: estão fugindo de tiros e bombardeios. Os inimigos os cercam por todos os lados e eles correm por suas vidas.
                Uma explosão muito próxima e eles caem. Haskel não enfraquece nem por um instante. Levanta-se rapidamente e começa a atirar com sua submetralhadora Sten. Ele atira até que a munição se acabe, então se agacha e recarrega rapidamente, mais rápido do que qualquer um do seu exército seria capaz de fazer. Agarra a mão da mulher e continuam a correr desesperados.
                Eles se encostam numa árvore, por um instante e se assustam com caças passando por sobre suas cabeças.
                Mais uma explosão próxima. Haskel pega sua mulher pelo braço e a joga rapidamente por trás da árvore para que ela continue a correr enquanto ele dá a devida cobertura. E ele começa a atirar enlouquecido até a última munição. Ele se livra da Sten e pula por trás da árvore para fugir de mais uma explosão.
                 
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                Haskel não pode entender o que está vendo agora. Não há passagem de tempo aqui. Estamos a um segundo depois de Haskel ter pulado por trás da árvore a fim de escapar da bomba e encontrar sua mulher. Mas ele está de roupas sociais, não militares. A barba, que há um segundo estava grande e desleixada, dá lugar a um rosto limpo e bem tratado.
                Sua mulher vem ao seu encontro. O desespero e terror por enfrentar a morte de frente todos os dias diante do armagedom não estão mais em seus olhos. Ao invés disso, uma inexplicável paz e felicidade. Ela o abraça, o beija e lhe recebe amorosamente.
                — Como foi no trabalho, meu amor? — Pergunta ela.
Ele não tem uma reação concreta, apenas fica sem ação. Os olhos perdidos no espaço. A mente na guerra. A mente na paz. A mente querendo paz. A mente querendo a guerra. Uma mente que nem mesmo se lembra de como era a paz. Uma mente que nem sequer sabe como é a guerra. Duas vidas misturadas na memória. Um sargento. Um executivo. Um matador. Um amante das artes. — Quem sou eu? — Ele pensa, mas permanece sem dizer nenhuma palavra.

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Ele não se lembra ao certo o que aconteceu depois de sua repentina chegada aos tempos de paz, ainda está em choque. Uma repentina volta à realidade, se é esta alguma realidade, o faz perceber que está sentado numa banheira no toalete. A sua amada lhe tira as botas dos pés e depois as meias. Novamente perdido nos pensamentos. Outra volta à realidade. Está banhando-se na banheira. A mulher acarinhando sua cabeça.
— Vai ficar tudo bem, meu amor, foi só um dia difícil — ela diz com uma voz suave, quase como se estivesse cantando uma canção.
Perde-se ainda mais profundamente em suas dúvidas durante a cantoria na bela voz de sua amada. Acorda na mesa de jantar, mas nem sequer toca na comida.
Põe a cabeça no travesseiro e começa a olhar em volta, reconhecendo seu quarto. Que quarto é esse? Meu quarto. Que quarto? Muita confusão... tudo muito estranho. Tudo muito familiar. Uma TV de plasma... o que é plasma? Um “Home Theather”... que rádio estranho... Onde está minha mulher? Onde está a única coisa familiar nas duas realidades?
E como um desejo a se tornar realidade, surge na porta a coisa mais linda que seus olhos há muito tempo não lembravam-se de presenciar. Sua amada esposa com uma lingerie sensual, levantando o braço e encostando-se ao portal em uma pose mais sensual, olhando para Haskel como se precisasse consumi-lo naquele momento, como se nada mais importasse. E Haskel começa a entender isso.
Ela inspira, preparando-se para falar. Haskel sorri esperando a suave voz musical de sua mulher. Mas ao invés disso, arregala os olhos assustado ao ouvir uma rouca voz masculina.
— Senhor, as tropas estão avançando! — Essas palavras saem da boca da esposa, mudando a face dela para desesperada novamente. Ele levanta da cama, apavorado.

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Haskel olha para os lados novamente. Dessa vez ele reconhece tudo. Sua barraca no meio do acampamento da resistência polonesa. Acabaram de chegar na Alemanha de Hitler e parece que a primeira noite já está cheia de ação.
Na porta um soldado desesperado segura sua Sten e grita forte, implorando ajuda do sargento, pois nazistas teriam sido avisados da localização deles e estariam iniciando um ataque naquele momento.
— Estou indo, soldado, volte para sua posição! — Ordena Haskel com autoridade. O soldado obedece. 
Ao olhar para o lado, Haskel vê um segundo travesseiro, colorido, ainda com o cheiro de sua amada esposa, única coisa que ele ainda tinha dela desde que partiu para esta maldita guerra. Ele suspira, guarda toda emoção na boca do estômago e se levanta, saindo de sua barraca e partindo para a ação.

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Não sei se é uma passagem de tempo, ou se acontece no momento seguinte. Não sei se é um segundo depois ou meio século. Mas a esposa do sargento se levanta assustada após um pesadelo. Ela olha em volta e avista somente os móveis de seu quarto, a TV de plasma que sua neta lhe presenteara junto com o aparelho de som em seu aniversário de 72 anos. Também uma foto de seu marido, em preto-e-branco. Ela sorri e deita-se em seu travesseiro, fechando os olhos e voltando a dormir.
Ao seu lado um travesseiro vazio. Ou quase vazio. Não havia uma pessoa, mas uma medalha de honra aos mortos em combate no dia da queda de Hitler, a última batalha da segunda guerra mundial, aniversariando meio século naquele dia...

FIM / PRINCÍPIO / ?

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