terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Arrepio - #[Mini conto]



                Oito e meia da noite. Helen já estava preocupada. Seu marido nunca chegava depois das oito. Dava pra acertar o relógio por ele. Uma olhada na janela. Duas. Oito e trinta e cinco. Nada ainda.
                Finalmente às oito e quarenta o rangido do portão precisando de graxa se abrindo.
                Beijo. Amauri chegou do trabalho, mas estava mancando.
                — O que aconteceu, meu amor? — Perguntou Helen.
                — Nada demais — respondeu Amauri. — Só preciso de um banho.
                Eles entraram e Amauri tirou os sapatos assistindo o final do noticiá­rio, já que atrasara naquele dia e não conseguiu assistir do começo como o de costume. Cinco minutos depois, créditos na televisão e banho enquanto a janta esquentava.
                Helen terminava de aquecer o jantar quando viu o marido sair do banheiro mancando muito. Ela foi ao seu encontro quando ele quase caiu.
                — Amor, o que aconteceu? — Insistiu na pergunta, preocupada.
                — Vem cá que eu te conto.
                Eles foram até a sala e sentaram no sofá.
                — Não quero que se alarme, já estou me sentindo bem melhor — começou a dizer Amauri, pondo a mão no joelho dolorido e apertando o “mute” no controle remoto da televisão com a outra mão.
                — O que foi? — Helen queria saber logo.
                — Eu tava atravessando a rua, aquela principal perto do “sacolão” e um carro avançou o sinal. Ele me pegou forte, me derrubou e fugiu, sem prestar socorro.
                — Meu Deus, você precisa ir a um hospital pra ver se não machucou nada mais grave! — Se alarmou Helen.
                — Eu pretendo ir, amor, mas só queria passar em casa antes, afinal é já tava ali no “sacolão” e queria tomar um banho primeiro. E pra falar a ver­dade eu tava com outras dores no corpo, até na cabeça, mas melhoraram enquanto eu caminhava, só a dor no joelho agora, mas já tá passando.
                — Mesmo assim tem que ir no médico ­— Helen tentava disfarçar a apreensão, mas era difícil. Já perdera entes queridos no passado por conta de acidentes de trânsito, estava trêmula e as palavras se embolavam um pouco.
                — Eu sei amor, eu vou sim. Só queria primeiro vir aqui e cumprir minha rotina, te dar um beijo, assistir o noticiário, tomar um banho e jantar. Depois eu vou, prometo.
                Helen serviu o jantar, ainda alarmada.
                Eles jantaram. Helen reparou que Amauri mal tocou na comida. Ficou ainda mais tensa.
                Nove e meia Helen pegou a chave do carro.
                — Vem, vou te levar no hospital agora pra tirar umas radiografias — ordenou Helen.
                Amauri não retrucou. Como se fosse um filho obediente apenas sentou-se no sofá e começou a calçar o tênis que trouxera da sapateira pró­xima ao banheiro quando saíra do banho. Levantou-se e constatou que já não mancava mais. A dor passara por completo.
                O telefone tocou.
                Amauri olhou gravemente para ele. Nem mesmo sabia por que o olhava assim. Sabia que era algo ruim. Não entendeu bem porque sabia disso, só sabia. Não tinha motivos para pensar, mas pensou assim.
                — Alô — Helen atendeu.
                — É a dona Helen? — Alguém perguntou do outro lado.
                — Sim, quem fala?
                — A única informação que eu tenho aqui em mãos é seu nome e número, desculpe, preferia ir pessoalmente aí, mas infelizmente terei que dizer isso por telefone.
                — Do que se trata?
                — Eu sinto muito ser portador de más notícias. Péssimas na ver­dade. Mas estou ligando pra informar sobre um acidente com seu marido.
                — Sim, já estou ciente, estou levando-o agora mesmo ao hospital pra fazer exames e saber se não há nada mais grave.
                — Senhora... não sei se entendo o que a senhora está dizendo... seu marido está aqui do meu lado. Um carro o atropelou e ele morreu na hora. A pancada mais forte foi no joelho, mas quando ele caiu bateu a cabeça forte no meio fio. Lamento.
                Ela olhou para o sofá como por reflexo, não tendo naquele segundo de reflexo um sentimento concreto. Mas o telefone caiu de suas mãos. Não havia ninguém no sofá. Só o tênis estava lá, mas nada de Amauri, nada de roupas, nem o sapato do trabalho que ele teria largado ali perto da estante. Nada!
                Uma rápida olhada na pia, onde havia despejado a louça do jantar, foi suficiente para saber que o jantar de Amauri ainda estava todo no prato, ele nem havia tocado na comida.
                Helen arregalou os olhos. Todos os cabelos do seu corpo arrepiaram, começou na espinha, passou para os braços, busto e espalhou-se por todo lugar. Os olhos doíam de tão arregalados. Os bicos dos seios endureceram e apertaram contra o sutiã.
                Helen caiu de joelhos violentamente ainda toda arrepiada. Era um frio esquisito, não estava no ambiente, só na sua pele. Arrepio. Um arrepio fantasmagórico que ela nunca sentira na vida.
                Um minuto para ela conseguir piscar, ainda fixa no sofá vazio. Ou­tro minuto para conseguir raciocinar e dizer às primeiras lágrimas de um longo pranto que se avizinhava:
                — Desculpa amor...
                E danou-se a chorar como nunca chorara na vida.
                E sofrer como nunca sofrera antes.
                O arrepio sumia, mas voltava quando ela lembrava que havia estado com Amauri ali e agora.
                Ela não disse “lamento”, ou “sinto muito”. Mas “Desculpa”.
                Ela teorizou em segundos o que acontecera.
                Amauri morreu na estrada, mas foi tudo tão rápido que não perce­bera. Foi pra casa cumprir sua rotina sem perceber que estava morto. Ela atendeu ao telefone e a audição aguçada do espectro escutou o telefone.
                Se ela não tivesse atendido ao telefone, quanto tempo mais teria tido ao lado do homem que amava?

 FIM
 
(Nota do autor: Me arrepiei da mesma forma que Helen enquanto escrevia isso, e estou me arrepiando agora.)

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