domingo, 19 de fevereiro de 2012

Alienado - #[Mini conto]



                Antônio já era porteiro daquele condomínio há 10 anos.
                Nunca usou óculos, mas estava achando que precisaria ir ao oftalmologista, pois dores de cabeça constantes enquanto lia só poderiam ser sintomas de perda de visão.
                Uma tempestade caiu de repente, sem previsão. Fizera calor o dia inteiro, e ao anoitecer simplesmente o céu desabou.
                Antônio estava sozinho no condomínio. A festa de carnaval levara todos para a rua. Todas as 25 famílias do condomínio. Ah não, minto. O senhor Rivaldo ainda estava em casa. O velho cristão que passava os dias de carnaval tocando “Roupa Nova” em seu violão para a namorada no telefone. Até que a cantoria desentoada animava a noite, já que Antônio estava de plantão no último dia do carnaval e não havia coisa melhor pra fazer.
                A luz ficou intermitente. Apagava e acendia quatro vezes por segundo. Então apagou de vez uns cinco segundos depois.
                Antônio, em sua guarita, começou a tatear gavetas procurando a lanterna. Não demorou a achar.
                Antônio a ligou, lâmpada apontando para o chão. Então quando apontou para a porta, um arrepio forte e uma ponta no coração é a descrição mais próxima do susto que ele levou.
                Ele não saberia descrever bem o que vira, era apenas um homem muito, mas muito estranho, cabeçudo e magro. A lanterna caiu no chão quando ele desviou o olhar e tampou os olhos com as mãos ao mesmo tempo.
                A luz voltou.
                Ele foi voltando o rosto para a porta da guarita e tirando as mãos gradativamente. Não havia nada lá.
                A lanterna não quebrara, constatou. Ficaria com ela em mãos caso voltasse a acontecer.
                Saiu da guarita e iniciou uma pequena ronda nas proximidades. Começou olhando o portão, depois partiu para a estrada central do condomínio, entrada para todas as casas. A do senhor Rivaldo era a terceira da fileira esquerda. Ele não parara de tocar seu violão nem mesmo no escuro. Tudo bem. Ilusão de ótica maldita. Precisava mesmo de óculos.
                A chuva estava quase parando, sentiu-se um idiota por ter saído na chuva para fazer ronda um minuto antes de ela cessar completamente.
                Mais uns picos de luz.
                Intermitência nas lâmpadas de todo condomínio, na estrada, na casa de Rivaldo, na guarita.
                Arrepio dos pés a cabeça, mas só porque tinha tido a alucinação e porque estava assistindo muitos seriados sobrenaturais na televisão pequena da guarita. E por falar nela, chiado forte. Correu para desligar.
                Ao levantar o olhar para o poste do lado direito, atravessando a rua em frente à casa de Rivaldo, deu um grito de pavor. O cabeçudo estava lá. Não conseguia ver com perfeição, mas estava lá. Só ficou por cinco segundos. Cabeça não compatível com o corpo, muito grande para ser humano. Corpo excessivamente magro, membros como palito. Nenhuma roupa no corpo. Olhos enormes. Alienígena. Era só o que ele conseguia pensar.
                Mas sumiu. Antônio reuniu toda a coragem pra se aproximar do poste, olhou e olhou e não viu mais. Procurou no chão e nem um sinal. Ao levantar a cabeça, mirou o olhar sem querer na janela de Rivaldo. A janela estava aberta, Rivaldo deitado na cama e tocando. Mas na janela, do lado de dentro da casa, olhando para ele, o terrível alienígena.
                Antônio gritou e correu. Não parava de gritar enquanto corria apavorado. Tentou correr pra rua, mas ao tentar apertar o botão de abrir o portão, a intermitência da luz causou falhas no mecanismo. Não teve coragem de tentar abrir com a chave, pois o processo poderia demorar mais do que o tempo que tivesse antes de ser abduzido para aqueles testes sinistros e dolorosos que via nos seriados de ficção científica o qual sempre fora viciado.
                Ao olhar para trás, na janela da guarita, o alienígena o fitava atento. Ele correu e gritou como se sua vida dependesse disso. Gritava fino e muito alto. Correu na direção da casa de Rivaldo, que já estava na porta curioso para saber que gritos afeminados eram aqueles de Antônio.
                Antônio passou por Rivaldo abruptamente, entrando na casa. A luz da sala estava apagada, e pela porta aberta do quarto, que tinha luz acesa, viu o alienígena o olhando sem emoções visíveis nos olhos enormes e totalmente pretos.
                Antônio subiu correndo as escadas, depois a do terraço e percebeu lá no alto que não tinha para onde correr e que ali era o lugar mais perigoso para se estar. Olhou para cima procurando a nave, procurando a luz que o levaria. Não viu nada disso, o céu todo preto, nem estrelas nem lua, nuvens tomavam tudo, e nem elas se mostravam também a olho nu. Tudo preto.
                Novo susto ao ouvir seu nome lá em baixo, na estrada. Olhos arregalados ao fitar o ser que o chamava pelo nome. Mas não era o alienígena agora, era Rivaldo perguntando o que estava fazendo. Depois pediu que saísse da ponta.
                Novos picos de luz e a luz estabelecendo-se em seguida. O alienígena estava perigosamente atrás de Rivaldo, como se o fitasse. Antônio deu passos lentos para trás à medida que o cabeçudo e magrelo monstro dava passo para frente, se aproximando de Rivaldo.
                Reuniu toda a coragem que pôde e gritou por Rivaldo, para que este olhasse para trás. Rivaldo olhou. Antônio tirou os olhos, virando para o outro lado.
                Desespero, decepção, dúvida, medo, arrepio, tudo junto. O estômago embrulhou, o vômito saiu. O alienígena estava bem na sua frente, brilhando à luz da lua que acabara de despontar entre uma fenda nas nuvens.
                Dedos magros e enormes mostravam um sinal parecido com um dos filmes antigos de ficção científica, a boca abria e mexia, mas não saía nenhuma palavra.
                Antônio foi dando passos para trás, enquanto tinha a nítida impressão que o alienígena vinha dando passos em sua direção. Só que esqueceu que tinha se virado e não percebeu o degrau no terraço.
                Caiu de 7 metros de altura. Se não tivesse caído de cabeça poderia ter sobrevivido.

                ###

                No IML, o Doutor Tomás analisava o corpo enquanto instruía um grupo de alunos visitantes. Dizia que o homem havia se matado por algum motivo e ninguém entendera bem, pois sempre fora de bem com a vida. Então Doutor Tomás expôs sua teoria: mostrou uma radiografia dos olhos de Antônio. Havia uma catarata muito pequena, quase imperceptível. Ela poderia estar causando uma mancha na visão que poderia ser vista toda vez que, por exemplo, houvesse oscilação de luz, ou mudança drástica de iluminação.
                Em seguida Tomás mostrou um desenho aos alunos visitantes. O desenho era uma representação gráfica feita por ele mesmo do que o pobre homem estaria vendo na noite em que se matou, não o tempo todo, mas nos momentos de oscilação de luz.
                O desenho mostrava uma mancha tipo rorschach. Alguns alunos não viram nada, mas dois deles mais vidrados em filmes antigos de alienígenas, viram no borrão um alienígena clássico, tipo homenzinho cinza, cabeçudo e muito magro, olhos grandes, sem nariz e boca pequena. Até os orifícios do que seriam os olhos na cabeça estariam lá. Depois que foi explicado, todos passaram a ver e entender a semelhança no borrão.
                Tomás terminou com uma piadinha:
                — Fiquei sabendo que ele era fã de ficção científica. Um nerd! Deve ter morrido achando que seria abduzido pela nave mãe do ET que morava no seu olho esquerdo — e ria satisfeito, despertando pequenos sorrisos duvidosos nos alunos. — O idiota se matou achando que estava sendo perseguido por essa mancha. A imaginação fez o resto e no fim o alienado era ele próprio...

FIM

2 comentários:

  1. olá Flávio,

    Parabéns pelo blog. Uma dica: Ler na tela é uma tarefa ingrata, cansa mais rápido do que no papel. se as letras são brancas pequenas e tem o fundo preto, cansa mais rápido ainda.

    Ficaria mais fácil ler se as letras fossem um pouco maiores, sem serifa, fundo cinza claro e letra pretas.

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    1. Obrigado pela dica. No novo conto publicado, Olhos Dourados, já adotei uma nova template, parecida com a da sua dica. A fonte ainda está em estudo, para o próximo conto talvez esteja mais profissional.
      Aproveite.

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